Resumo
O personagem Kolia Krasotkin, de Os Irmãos Karamázov, de Fiódor Dostoiévski, aparece poucas vezes, mas está fortemente vinculado às transformações ideológicas da Rússia durante o período de transição dos modelos de desenvolvimento após a Reforma dos Servos de 1861 (Nguyen et al., 2024). Nesse contexto, até mesmo uma criança pode amadurecer precocemente em virtude do impacto rápido das realidades sociais. Kolia pode ser visto como um símbolo espiritual da jovem intelligentsia russa nessa fase de efervescência ideológica. Esse período foi marcado por uma atmosfera vibrante, com o entrelaçamento de correntes intelectuais distintas e até opostas; em especial, as tendências filosóficas ocidentais dos séculos XVIII e XIX, sobretudo o pensamento iluminista francês, incluindo Voltaire e Diderot. Ao longo de Os Irmãos Karamázov, Kolia Krasotkin é retratado como um arquétipo adolescente que aspira à maturidade intelectual, mas ainda vacila e se mostra impulsivo na escolha de seus ideais. Essa escolha oscila entre o materialismo científico, o pensamento ateísta e a fé religiosa, influenciada por Aliócha Karamázov. Por meio de Kolia, Dostoiévski transmite uma profunda mensagem filosófica sobre o espírito e as aspirações da jovem geração russa em suas escolhas ideológicas nesse período histórico de transição: eles podem se perder devido a “ilusões racionalistas”, mas também encontrar a luz da verdade se aprenderem a conciliar razão e fé. Kolia Krasotkin costuma ser considerado um personagem secundário e ainda não foi amplamente analisado. Este artigo busca contribuir para o estudo do papel de Kolia Krasotkin como símbolo filosófico no contexto da Rússia contemporânea de Dostoiévski. Ele é uma figura contraditória: superficial e profunda ao mesmo tempo; íntegro, benevolente e altruísta, mas também extremado, incorporando um voluntarismo ingênuo em sua visão de mundo.
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